Os rituais da cultura organizacional revelam muito mais sobre uma empresa do que qualquer missão escrita na parede. São os comportamentos repetidos todos os dias que ensinam às pessoas o que realmente é valorizado. Outro dia ouvi um CEO dizer que a cultura da empresa dele era muito forte. Perguntei como ele sabia. Ele respondeu falando dos valores, da missão, do propósito e do manual de onboarding.

Nenhuma dessas respostas me ajudava a entender a cultura daquela empresa, porque cultura não se mostra nos documentos, mas na rotina.

Rituais da cultura organizacional que moldam comportamentos

Cultura mesmo, aparece quando a reunião começa vinte minutos atrasada e ninguém acha estranho, quando um gestor interrompe alguém três vezes e a conversa continua como se nada tivesse acontecido, quando um colaborador brilhante pode tratar qualquer pessoa mal porque “ele entrega resultado” ou mesmo quando o diretor responde mensagens às onze da noite e, sem perceber, ensina que disponibilidade virou sinônimo de comprometimento.

Nenhum desses comportamentos costuma entrar em um planejamento estratégico, mas todos eles ensinam alguma coisa.

É curioso como as empresas costumam procurar grandes explicações para problemas que começaram muito pequenos: o turnover que aumentou, o clima que pioro, as pessoas pararam de dar ideias ou a liderança que sempre reclama que precisa de autonomia.

Ai, começam os projetos, a pesquisa de clima, os workshops, os treinamentos e até a revisão dos valores e enquanto isso, o ritual que realmente produz aquela cultura continua alí, acontecendo todos os dias, exatamente do mesmo jeito.

É importantíssimo ter manuais, regras e processos, mas eles precisam conversar com a rotina, porque no dia a dia as pessoas praticam muito mais do que a empresa faz, do que o que ela diz.

E isso não demora muito não, um colaborador novo leva poucos dias para descobrir que pode atrasar uma entrega sem consequências, que não tem escuta nas reuniões, quem recebe as promoções, que não pode “contrariar” um diretor, etc. Ele vai absorvendo e aprendendo a cultura, na prática.

Foi Albert Bandura, um dos psicólogos mais influentes do século XX, quem demonstrou que aprendemos observando o comportamento das outras pessoas muito antes de receber qualquer instrução formal. E como parte da construção da sociedade, é assim que acontece nas organizações, os comportamentos mais observados acabam se tornando os comportamentos mais reproduzidos.

É por isso que um líder respondendo mensagens no domingo à noite comunica muito mais sobre disponibilidade do que qualquer política de bem-estar publicada na intranet.

Por isso, este artigo é um convite para olhar com mais atenção para aquilo que acontece fora das apresentações do RH.

Observe as reuniões, as promoções, os feedbacks, as conversas de corredor, a forma como os conflitos são resolvidos,o comportamento das lideranças quando estão sob pressão. É aí  que a cultura aparece.

Toda empresa ensina alguma coisa, mesmo quando não percebe, e talvez a cultura da sua empresa seja muito mais forte do que você imagina, só não, necessariamente, na direção que você gostaria.

Antes de revisar os valores da parede, vale a pena observar os rituais da rotina. Afinal, são eles que dizem às pessoas, todos os dias, como a empresa realmente funciona.


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